Editorial

EDITORIAL

Entre as muitas funções do recalque, há uma que nos permite distância saudável frente às queimações edípicas, frente às ardências de demandas que sustentam o desejo em suas infinitas variações; distância que, sobretudo, permite o movimento do desejo.

Mas também encontramos a função de evitar a castração tanto quanto se possa, de manter a crença na convicção de ser especial e, com isso, não tão castrado quanto os semelhantes.

Entre as duas funções, sem excluir outras tantas, circula o cotidiano de uma instituição que propõe a formação de psicanalistas, pleno de impasses, alguns passes, muitas passagens largas e outras estreitas. Em suas paredes, retalhos narcísicos compõem mosaicos que ora se assemelham à montagem da pulsão descrita por Lacan no Seminário XI, ora se apresentam com a elegância criativa própria de quem se reconciliou com a existência de um desejo que carrega a castração nas entranhas.

Circulação complexa pois as palavras – tão pequeninas – tanto podem ser suficientemente elásticas para carregar sintomas medonhos e aspirações ao impossível, quanto podem ser rígidas a ponto de se transformar em casulos de conclusões que aspiram a borboletas mas se mostram tão somente vagos movimentos no ar.

Felizmente temos as palavras, matéria e carne da clínica.

Pois o enigma da formação é o próprio enigma do desejo, que a boca do Outro derrama a todo instante no caminho. E é de fundamento que nos dediquemos ao chifre desse unicórnio que juramos não existir mas evocamos a cada passo, para cuidados meticulosos.

É de desejo que se trata na formação.

Imperativo – palavra quase maldita depois do Seminário VII – que nos dediquemos a seus caminhos, suas paisagens, seus grotões, sem medo do mal estar inevitável para os aventureiros de suas rotas que buscam reconhecer as balizas sem transformá-las em mandamentos.

O ano de 2015 foi ano de reorganização para a Associação Psicanalítica de Curitiba.

O ano de 2016 será ano de mais estudos para fazer frente ao enigma sempre renovado da formação, buscando modos suaves – se existirem – de enfrentar alguns demônios de gozo que usam se alimentar de muitas instituições quando os temas da formação e do final de análise se apresentam.

Mas, embora os retalhos a princípio não possuam sentido algum a não ser o fundamento da parcialidade, é possível construir beleza e equilíbrio com eles.

Essa, nossa aposta.